Dia delido
16 de janeiro de 2026
doce ou salobra
pluvial ou marinha
bruta ou tratada
potável ou mineral
poluta ou residual
superficial ou subterrânea
glacial ou termal
dura ou mole
solvente ou instrumento de tortura
com açúcar ou gás
benta ou que passarinho não bebe
na boca ou no joelho
dormida ou suja
aquela ou maior
de perfume ou toalete ou colônia
de coco ou de cana ou de flor
ou gritada em “vai!” pouco sanitária
em aguaceiro ou aguaçal
na qual se navega em duas ou se afoga em pouca
que é bebida na orelha dos outros ou de chocalho
feita na dos outros ou na própria
de janeiro ou de março
rasas ou profundas
dormentes ou correntes
passadas e por baixo da ponte
quando fria usada para cozinhar
até que se abra e vai abaixo
ou ainda a clara e boa e da vida
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como propriedade da linguagem
tal como convencionada em seu órgão
primeiro isto é a boca antes da mão
que há de se lubricar em língua para
o aparelho consoante a si poder
fazer falar plenamente isto é
vencer a aridez do pensamento
com umidade saliva e perdigotos
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o que há na água senão
água somada a outras águas
que sendo também parte
de um todo que não água
são dispersões visíveis ou não
que partem de ou se concentram
num corpo d'água ou não
mas dele dependente
para então se diluir em água
mais água e mais água
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se é nariz, escorre ou entope
se é olho, chora ou seca
se é boca, vomita ou engole
se é rosto, abre ou fecha
nariz, olho, boca, rosto:
charada para as crianças
metáfora para os adultos
eis: de onde vem a água?
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no alto da bacia do paranaíba
de porte menor que um rio
não há beleza no nome
feito passagem estreita
de sulco de água corrente
para irrigar e abastecer
caudaloso ou mirrado
ora os cafezais se hidratam
ora as torneiras secam
novidade: barramento! estação!
o departamento projeta
a secretaria outorga
água à parte, do que se trata?
agro maior que eco?
quem é mesmo o feio?
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aparecida das águas do paraíba do sul
em que pescadores esperavam um pescado
e vem à rede o milagre de maria pescada
desgastada em sua tinta hipnótica
pelo engano da semiótica mariana
(azul é teu manto, branco é teu véu)
quando sua origem é ribeira e doce
(turvo é teu manto, lodoso é teu véu)
mais amiga da hostilidade da água
portanto mais projetada à fé do povo
desde a conceição divinamente virginal
até o barro que lhe molda em terra preta
degolada, raptada, perseguida em seu folclore
recomposta, coroada, louvada em seu ornado
sincretizada em todo fervor, chutada ao vivo
comparada pelos seus domínios à coca-cola
mãe líquida em perene ternura e perdão
aos filhos, ao mundo, aos inimigos, a deus
até que se desague marulhosa em sua santidade
em tempo vingará as águas de sua aparição
fará rebentar caudalosa as calmarias
estremecerá milagres de todo cristal em barro
em sua candura brasil fará tal como apadrinha
mostrando tormentas de mãe entornada
ó, nossa senhora da conceição aparecida
santíssima virgem embebida de deus
rainha dos mananciais, da nascente à foz
cristalina senhora, bentíssima água
refúgio e consolo dos liquefeitos e liquidados
sede fluidez e transparência na hora da morte
lançai purezas sobre esta gota indigna que sou
socorrei-me em todas sedes e securas e turvações
preservai-me contra desidratações e afogamentos e outros flagelos
dirigi-me em todas as naus espirituais e empresas natatórias
agraciai-me muitas águas para molhar e amar e gozar
por toda a aguagem e todas as estações, amém
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que mata em definitivo a sede
nascida como fonte que em si
faz saltar para a vida eterna
a mesma emulada no batismo
isto é, espírito santo solúvel:
água tornada água viva
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andar sobre? água-aberta!
mais é estar encanada e à mão
dócil ao simples gesto enquanto
os gatos curiam os filetes
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toda água existe em contenção
tudo capaz de conter água é aquário
logo, toda água existe em aquário
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céu mar rio córrego? aquário
piscina balde copo gota? aquário
nariz olho boca rosto? aquário
som sentido palavra? aquário
gesto ideia abstração? aquário
sol terra universo? aquário
e se houver um nada
a água um dia lhe chegará
fazendo do nada
imagine só aquário
já é sabido há páginas
que no nada se nada
~
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o aquário é um claustro
nada-se pensando em liberdade
até que se dê uma braçada na parede
de vidro como numa redoma infinita
a transparência se confunde com o meio
não abordar a borda por não imaginar
a resposta à pergunta que encobre
os pesadelos de estilhaço: por que nadar?
o aquário é um claustro até
que se eduque o nadador ao nado
diante da concretude de uma parede
contra um vidro a nunca ser quebrado
cabe se amigar da borda e respirar
ou pisá-la em viradas olímpicas
depois de muitos metros se perdem
o esmero a graça o encanto
o aquário não será um claustro
haja vista sua imensidão vítrea
tão invisível que se desrealiza
um claustro? que claustro?
enquanto nadamos pra cá e pra lá
até que o ar comece a cortar dentro
pulmões arfantes coração explosivo
a alegria de não haver onde emergir
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placas de vidro unidas por silicone
base revestida de isopor e fita isolante
numa das paredes uma imagem subaquática
o fundo com cascalhos coloridos
bomba filtro sifão plantas de plástico
grutas lodosas e escombros de resina
um ambiente artificialmente projetado
para tédio contínuo ou vida sem vida
na ponta do oxigenador um escafandrista
muito borbulhante e em pose estática
os moradores atrás das pedras dormindo
ou à superfície em busca de grãos ou
ainda brincadeiras com seu jovem criador
cujo interesse em outras domesticações
(faz-se tempo) o esvazia e empoeira
esquecido dentro do guarda-roupas
paisagem desbotada de pouca vista
as histórias de cada mergulho realizado
o escafandrista não contou a ninguém
já muito mortos nadando no ar os peixes
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mergulho perene sinal de doença
nadadeiras raspando no fundo
água esverdeada de microalgas
excesso de luz resíduos nutrientes
bolinhas de ração boiando
caminha de folha plástica vazia
fora d'água ainda resistir
dose extra de lidocaína
com artifícios de cerimônia
se faz um dobre improvisado de finados
no banheiro uma despedida tosca
gorgolejos do vaso sanitário
poderia dormir numa cama de gelo
seu cheiro nada ornamental
poderia sonhar com um jardim aquático
um cativeiro digno enfim
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natação alguma garante ou previne
fisgada onipotência ingenuidade
erro de cálculo distração cansaço
água rasa ou funda capazes do mesmo
tormentosa ou não permanece indiferente
um incidente contradiz o acidente
"mar não tem cabelo", diriam
qualquer um pode e ninguém deveria
(segundo o boletim epidemiológico
da sociedade brasileira de salvamento aquático
por dia morrem afogados 16 brasileiros
isto é 1 a cada 90 minutos)
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não se querem dilúvios pois a imagem é gasta
ou inundações de saneamento básico e irônico
abrem-se as comportas de um barramento inútil
e o que era represa se escoa espumoso e arejado
querem-se como num copo pronto para hidratar
são águas de poeta aguado portanto imaginadas
da melhor ou pior digam os sedentos ao beberem
com estalos de língua em refresco ou dor de dente
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7 de novembro de 2025
12 de outubro de 2025
bi-a
ô, bia
vamos brincar um pouquinho
de fone ou no brinquedão?
pandeirinho ou papelão?
sair do quarto um 'cadinho,
comer capim-cidreira,
beber água da torneira
bi-a
ô, bia
tanto dorme o tempo passa
é preciso resistir,
não ser assim tão sem graça
nossos dias são finitos
tentamos algo contra,
fingindo outra farsa
bi-a
ô, bia
velha velhice maldosa,
não poupa e já logo esgota.
seria melhor a vida lá fora?
sofro por nós sem saber
do nosso prazer-lazer...
você mia, mia, mia
30 de julho de 2025
juninho
do outro lado junto ao muro, cresce um pé de mandioca, que sombreia a concertina, que, por sua vez, tenta o quanto pode cercar ou concertar o que lhe cabe. julgando ali um bom lugar, sob a proteção de folhas e entre espirais que cortam, surge uma ideia para um casal: gravetos e galhos e pauzinhos, um círculo se monta e se faz e: eis um ninho de pombo. para a curiosidade de todos os pássaros do parque dos pássaros e, inclusive, a nossa. um ninho?
assim começa, inserindo-se na ingenuidade dos dias, o entretenimento natural: pardais chegam perto e dão notícias sobre, canarinhos também, mas pula-pulando e cantando; bem-te-vis dão rasantes e sentem fome, mas não tentam mais do que atentam. nós, da janela, comentamos tudo e agimos: gritos com os bem-te-vis, cocho de canjiquinha e pão ralado, água clorada, porém fresca da piscina. o pombo-pai aparece rapidamente e logo flana, exercendo sua paternagem territorial. a pomba-mãe escrutina empoleirada e arrulha repetidas vezes, tentando entender ou entendendo de fato e deixando a nossa parceria.
durante a postura e a incubação, pombos-pais se alternando nos cuidados do ovo, como são inteligentes, a natureza é perfeita, etc. tão perfeita que nós, muito humanos, observamos e significamos tudo: agora a mãe, agora o pai, o filho já nasceu?, cadê o pai? só estou vendo a mãe aí... será que está triste? saiu pra comprar cigarro e nunca mais voltou, deve estar no trabalho, logo choca e voa para fazer faculdade, etc. observamos e significamos a partir da nossa perspectiva, o que é, afinal de contas, uma incapacidade de observar e significar. ao fim e ao cabo, seguimos observando, enquanto o casal natural resistia à própria natureza, isto é, aos calangos, ao vento, ao frio.
especulações sobre o mundo das aves e projeções biográficas, o tempo age e nasce juninho, o filhote. menorzinho, quando despontou do ninho para nós, com exceção da cara de criança, nos pareceu idêntico a qualquer outra pomba-asa-branca de sua espécie (Patagioenas picazuro – patageö e oinas, do grego, "barulho, barulhento" e "pomba", respectivamente; "pcázuró, do guarani, "pomba amarga, amargosa"). acinzentado, amarronzado, esbranquiçado, a depender do ângulo e da parte do corpo. cauda ligeiramente mais escura, quase preta. ainda é silencioso. apesar do amargo de sua espécie, por força dos costumes e opções alimentares, não saberemos seu sabor.
a não ser nossa ficção de gênero em nomeá-lo como macho, é muito parecido com a mãe, o que não resolve a verdade de seu sexo de imediato. ainda assim, juninho é um(a) pombo(a) tão amparado(a) de cuidados, mesmo na ausência instalada do pombo-pai! definitivamente, sua criação será feminina. ainda que mal, pela incipiência de sua infância, já quase age como todos os seus: pede leite de papo, cisca aleatoriamente, estende as próprias asas ainda sem o espelho que lhe é característico, recolhe-se ao ninho, canta um gú-gu-gúu meio tímido, pouco barulhento. ainda não sabe voar, e seus ensaios ocupam as tardes e servem de muita graça; daqui a pouco, quem sabe? por enquanto, juninho cresce e aparece.
o problema: o instituto nacional de meteorologia emite um alerta amarelo de declínio de temperatura com duração de dois ou três dias desde seu anúncio. tais previsões se concretizam em um fim de tarde de segunda-feira com uma ventania forte, que durou alguns poucos minutos, mas o suficiente para sacudir a copa das árvores e espalhar poeira e fuligem... o que resultou, para o desgosto dos varredores do serviço de limpeza urbana e dos afeitos ao asseio doméstico, em vias imundas de folhas secas e casas sujas, quintais e passeios emporcalhados.
o drama: o ninho, pouco guarnecido em sua própria estrutura frouxa, muito frestado e mal coberto pelo pé de mandioca já desfolhado, tombou ainda mais para trás com os ventos, enroscando-se nos galhos ao lado, enganchando-se nas farpas da concertina. nos dias anteriores, com os ventos de inverno, a pomba-mãe havia tentado ser algum peso para gangorrar o ninho de volta ao muro, sem muito sucesso. diante do pé de vento, não houve remédio.
juninho ficou sentado no cimento dos tijolos do muro, aparentemente lamentando que sua casa se tornou porcaria, talvez assustado pela força da matéria mesma que o fez. juntos, mãezinha e filhote passaram uma noite de frio, o que faz confundir sofrimento e natureza. pela manhã, vimos que havia sumido. a pomba-mãe, com seu olhar estático, ficou um pouco ao lado do ninho tombado, emitindo gu-gu-gús, traduzíveis em chamamento e choro. logo voou. da vista da janela, restou o ninho vazio, imprestável e para trás.
no dia seguinte, não sabemos se as outras pombas-asa-branca que pousam por aqui é de fato a pomba-mãe ou o próprio juninho, já mais desenvolvido por ter sido calejado pelas intempéries da liberdade. fato é que se interessam pelo ninho, espreitam e esticam o pescoço, cientes ou não do que se passa ou se passou. fato é que, do nosso lado, o que era um convívio indiferente se tornou experiência, portanto carinho e preocupação. dados os muitos encontros com outras pombas da mesma espécie, todas têm nome e (como é difícil evitar o espelhamento) são, senão em par, juninho, ou uma mãe eternamente em busca de seu filho perdido. intempéries da liberdade.
9 de maio de 2025
às pressas por me prensar entre os minutos ou por qualquer atraso inventado, sem a calma que asseguraria a atenção e a prudência em ir pedalando, às pressas como se contra a noite e pouco amparado pelas luzinhas da bicicleta, com o acúmulo do dia se esvaziando por meio das pernas e do uivo do vento aos ouvidos, às pressas diante dos carros que envelopam o corpo, tão maiores e vorazes, enquanto esta matéria frágil quase ignora a si mesma para fazer movimento, às pressas descendo a rua sem saída da garagem da viação da cidade, ao lado um descampado de mato alto e terra revolvida, às pressas guinchos de corujas e estrídulos de grilos, a beleza sinistra da vista da cidade logo após a hora de maria, chão e ar tremendo pelo motor do trem às pressas vindo, vindo, vindo, às pressas outro tempo se impõe: espero desmontado e à beira – medo e hipnose pela máquina – passar pelos trilhos – sentir sem olhar de frente: vagões se deslocando: buzinas alongadas – freios estridentes – assobios explosivos: quantos? – e sigo.
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pare, olhe, escute. na ruidosa calma que lhe é própria, segue indiferente à sua própria proporção, ritmando sem escutar, como um metrônomo maquinal que se ecoa pelos próprios trilhos. anuncia-se junto ao badalo de sineta em crescendo, em grandioso ribombo de pistões e freios, dando mostras de apertos e alívios de compressões, calmamente. seu conjunto emula qualquer ideia sinérgica de ordem, sequência, união. os trilhos, quando não estão sendo usados, servem de cenário para
ensaios fotográficos e metáforas de gosto duvidoso: reflexões inofensivas do que lhe passa, do que passa. ainda, os trilhos servem de caminho ou ponto de referência para os geográfica e
existencialmente desbussolados, à beira. e o maquinista, iluminado pela luz azul do monitor de seu painel de observações, diverte-se sempre, buzinando sua inconveniência, mas mais contido à meia-noite em respeito ao descanso alheio. fosse sangue, seria parte de um sistema sanguíneo-ferroviário que marca o passo da cidade-coração. funciona como um relógio que conta a si mesmo, aproveitando-se em alongamento espichado de pura horizontalidade, sem saber o que são ponteiros ou horas. carrega mercadorias e, portanto, delírios de ser a parte motora da ideia muito gasta de locomotiva de um país. ao fim, é profundamente contrário ao tédio e não é menos do que uma sucessão de vagões, isto é, uma tristeza alegremente cativada em sua própria alienação, uma síntese ontológica da alma da cidade, um corpo que não dói e por isso em constante trabalho: orgulho, pobreza, devoção, utopia.